quinta-feira, junho 04, 2026

Ser livre

E se não for a liberdade,
o que poderia ser?
Ser livre e o que mais?
Subalternos, o dinheiro, o amor,
a glória, ou qualquer outra marmota.
Ser livre porque Deus é livre.
Deus joga poemas ao vento
e os leia quem quiser.
A liberdade de não saber,
a beleza de não querer,
a ternura de não se entregar.
Fazer!… sem saber as regras!
Entrar!… sem ser convidado!
Pois quem precisa de convite
se pra quem é solto não existe
chave, porta, portão ou cadeado?
Venha, mas não me atormente.
O teu fardo do mundo é teu,
não deixe o meu mais pesado!
Caminhemos juntos à beira 
do desfiladeiro, sem pânico dos passos,
que nos levam para cima,
sem medo dos tombos,
que nos precipitam no chão sem fundo
ao qual já pertencemos.

quarta-feira, junho 03, 2026

Três vivas

Meus três vivas a você
que é amador profissional.
Que faz malfeito, mas faz
sempre de coração.
Que usa pedaço de pau,
cabide, arame, barbante
e o Chat GPT.
Que fuça onde não entende,
se cansa, toma choque,
preza a prática à teoria,
tem medo, mas tem raça,
se cansou do jogo,
se cansou das máquinas,
desencantou-se dos seres
e continua fazendo, pois se não fizer
para de se fazer você.
Meus três vivas a você que ouve
mais o estômago
do que a voz do cérebro.
Que mergulha no coração
dos cuidados de Deus,
que escuta a voz do amor
à voz da lógica,
que aprendeu truques com o avô
e ensina os mesmos truques
ao neto.
Você, que não produz
nada que presta, mas tudo o que vale,
pertence à categoria das sutilezas
que sustentam o mundo
e que, quando o mundo acabar,
sustentarão outra coisa ainda
mais poderosa, que nem eu
nem você sabemos o que é,
mas a ela servimos
de corpo e alma,
agora e para todo o sempre,
amém.

quarta-feira, dezembro 03, 2025

O que sou

Em silêncio.
Sem movimento.
Sem esconderijo.
É isso o que eu sou.

Rendido.
Sem dono.
Sem mando e sem cuidado.
É isso o que eu sou.

De olhos fechados.
Sem o ardor do mundo.
No tempo infinito.
No altar profundo.
É isso o que eu sou.

sexta-feira, novembro 22, 2024

Leve, leve

Estou leve, estou mais leve.
Parece que minha leveza vai me levar
em outra direção.

Estou mais leve, estou leve.
Para onde vai me levar o meu balão?

Leve feito a pluma.
Leve feito o vento.
Leve, vento meu, a pluma que sou eu
para outro movimento.

Leve feito a água.
Feito bolha de sabão,
que pousa sem nenhum perigo
sobre um chumaço de algodão.

terça-feira, setembro 10, 2024

Grosso mato austral

Solavancos e solavancos precipitam o ser
no chão duro da realidade.
Construções abandonadas, carcaças abertas,
esqueletos ao céu.
Os urubus as rodeiam e o carro velho passa,
deixando tudo vagarosamente para trás.
Fumaça contaminada de gasolina mal queimada.
Linha reta de asfalto atravessando todo o chapadão.
Nuvens recolhidas nas cavernas.
Anjos com sede. Bois deitados sem mastigar nada.
A poeira sobe  é a maior entidade da Natureza.
Sobe e para em abóbada, como um imenso
campo de força.
Que nos assa ao tentar nos velar do sol.

quarta-feira, novembro 01, 2023

Imóvel contínuo

O que passou, pode passar mais uma vez.
Você é o mesmo que fora antes.
A água que corre pelas terras
é a mesma que já a espera no mar.

A flecha que se atira, se atira novamente, por que não?
A palavra dita é desdita quase sempre.
O que foi, volta e vai-se embora o quanto queira.
O mundo gira feito um pião 
sobre um bambolê que dança na cintura dura do nada.

Bis, replay, déjà vu.

Meu coração se atira em direção ao seu
e volta com um pedaço de você para mim.
Eu sigo sendo eu, somado ao seu.
Você segue sendo você, tirando o para mim.
Atire agora o bumerangue e colha 
sua parcela móvel desta estátua sem fim.

terça-feira, outubro 17, 2023

Um presépio em plena Páscoa

Um presépio em plena Páscoa
significa que a Paixão começa
quando de pequeno nasce
o Espírito, de propósito,
emaranhado na Carne.

Carne que fica pendente nos pregos,
antecipados nas palhas que cutucam
as peles do menino.

O Espírito logo volta e requer o que é seu.
E dessa vez é a Carne que renasce,
por livre escolha,
enredada em Deus. 

Fruto carcomido

E se a serpente, na verdade,
era um bichinho da maçã,
que Eva, na mordida,
engoliu
e lá dentro
o pecado criou lombrigas?