terça-feira, outubro 20, 2026

Silêncio

Se você defende,
você não silencia.

Se elabora belas palavras,
não é silêncio.

Se culpa o barulho
pela falta de silêncio,
você é o barulho,
não o silêncio.

O silêncio foge
e você o persegue.
Se o persegue, quem
é o tumulto?

Ele chegou. Ele quem?
Quem tem nome?
Já foi embora.
Ele não atende.

O que fica
depois de você gritar
para dentro e para fora
até quase explodir,
esse começa a ser
o silêncio.

segunda-feira, setembro 14, 2026

Tempo nublado

Oito dias consecutivos de chuva, chuvisco.
O vento prometido, porém, não veio.
Os passarinhos continuam nos galhos, cantando pouco.
Uma ou outra pomba gorda se arrisca a permanecer intacta no topo de um telhado.
O quarto está gostoso e dele não há a menor vontade de sair.
Pessoas estão morrendo de repente e é impossível não se incomodar com isso.
A vida continua, mas para elas de uma forma nova, que nós que ficamos desconheceremos até que seja nossa a oportunidade.
Ou talvez em algum canto da nossa alma já sabemos como é, só encobrimos com o mundo material.
São 13h42 de uma segunda-feira.
Tudo na verdade tem cara de ainda estar começando.
Muito há para ser feito, mesmo que pouco seja de fato o que queremos.
Quem quer, porém, é o mesmo que manda oito dias seguidos de chuva ou chuvisco.
O que faço é apreciar a cama disponível.

segunda-feira, agosto 17, 2026

Chuva bumerangue

Cai chuva quando Deus quer lavar
uma alma do desamor.
O sujeito, sozinho, ou entre a multidão,
ou com a amante na cama,
ou na missa, ou num enterro,
ou nos olhos de um cão,
de repente aceita que o que ele deu
não volta.

Então, cai o mundo como água.
É tanta água que o próprio Deus
quase tomba de lá de cima.

Veja quão forte são as chuvas
nesta era da desilusão.
E vão as enxurradas, estragando os asfaltos,
afogando os mendigos,
destruindo sonhos acordados
de gente que entregou a vida
para empilhar tijolos e equilibrar concretos.
TUDO por causa do amor
que não funciona como bumerangue.

Mas a chuva não falha:
se o sentimento não sobe
ela abaixa na mesma desmedida.

quinta-feira, julho 09, 2026

Fogo santo

Tuas linhas desenhadamente perfeitas
só se abalam com a perfeição maior
de outra coisa, que não é senão
o pulso da vida a atravessar tuas veias.

Estás viva e a vida corre de teu peito
às pontas das mãos,
do silêncio de tua caverna
aos rubores da face.
É a vida que balança os teus cabelos
e, deles, segue a fluir emperfumando o ar.

E os teus olhos,
quando encontram os meus,
emprestam-lhes o fogo santo da esperança,
sol nascente que brota no mar
e incendeia o céu.

quarta-feira, julho 08, 2026

Despertares da madrugada

Os despertares da madrugada!
Quando o sono se esvai,
porém não todo.
Quando vem a vontade de viver,
mas não para além da cama.
E deliciados com o meio-tom
das coisas delicadas,
alargamos nossos membros,
descomprimindo as velhas vértebras
e expandimos o nosso alcance do mundo,
sem abandonar os limites
do retângulo espumado.
Esse é nosso terreno sobre a Terra!
És daqueles que é logo tomado
por ideias e pensamentos
dos compromissos do dia?
Graças ao Bom Deus não sou.
A cama é uma conquista
e deve ser microscopicamente usada,
seja de olho aberto, ou fechado.

sexta-feira, julho 03, 2026

Estalagem

Sete mil setas apontam
para canto algum.
A direção escolhida cabe
ao primeiro passo sem tropeço.
Pela força das canelas
a jornada continua,
até que a fome, o frio e a sede
nos convidem para a estalagem
chamada Medo.
Lá, nos enfiamos debaixo das cobertas
e ligamos o ar condicionado
a menos quatro graus Celsius.
E o calor das almas se transforma
em cristais de gelo.

Sete mil setas

Minha pobreza é minha riqueza
que caiu na sensatez.
Algo dentro de nós está sempre
contando uma história...
para algo dentro de nós nem sempre
disposto a ouvir.
Caligrafia mais redonda e bela
que o silêncio eu desconheço.
Óbvio, mas vale reforçar:
quem lê não é o mesmo
que escreve.
Nessa sinfonia desarmoniosa,
quem não participa é rei.

Primeiro

Se fosses uma flor,
te dedicaria um jardim inteiro.
E perto do teu pedaço
próprio de chão,
plantaria o meu coração vermelho.

Assim, as raízes profundas do teu ser,
quando sentissem fome de tanto querer,
encontrariam o meu amor primeiro.

quinta-feira, junho 04, 2026

Ser livre

E se não for a liberdade,
o que poderia ser?
Ser livre e o que mais?
Subalternos, o dinheiro, o amor,
a glória, ou qualquer outra marmota.
Ser livre porque Deus é livre.
Deus joga poemas ao vento
e os leia quem quiser.
A liberdade de não saber,
a beleza de não querer,
a ternura de não se entregar.
Fazer!… sem saber as regras!
Entrar!… sem ser convidado!
Pois quem precisa de convite
se pra quem é solto não existe
chave, porta, portão ou cadeado?
Venha, mas não me atormente.
O teu fardo do mundo é teu,
não deixe o meu mais pesado!
Caminhemos juntos à beira 
do desfiladeiro, sem pânico dos passos,
que nos levam para cima,
sem medo dos tombos,
que nos precipitam no chão sem fundo
ao qual já pertencemos.